Na verdade eu não tenho muito o que sentir agora. Agora é a fase onde eu vou enganando todo mundo inclusive a mim, de que está tudo bem. Inclusive se eu passar um dia com minhas tarefas muito bem distribuídas e dispostas numa maneira que me deixe cansada demais pra pensar em nós dois quando chegar em casa, eu acabo do dia tão bem. Alguns chamam essa fase de negação, eu só chamo de 'vamos deixar assim'. Vamos deixar, deixa que quando for a hora eu caiu no buraco que eu andei cavando e deixo minhas unhas na parede pra sair de lá. Deixa. Deixa que tudo se resolve mesmo quando a gente foge do nosso próprio reflexo pois até meu rosto me lembra do teu. Mas deixa como está, porque tentar mudar não vai dar, então senta aqui comigo e veja que cenário lindo que é a vida nos iludindo antes de nos passar a perna tão rasteiramente que é até difícil de acreditar. É um golpe tão certeiro e mortal que é quase impossível escapar.
A verdade é que o tempo é a coisa mais importante que alguém possui, e a certeza de que esse tempo vai acabar um dia é quase igual a que todos nós somos iguais e vamos morrer iguais. Eu venho enrolando o tempo por dentro dos meus dedos e fazendo bolinhas de pequenas horas e deixando espalhadas pela casa, em cima do travesseiro, junto da cama, em cima da geladeira e do lado do computador. Venho fazendo do meu tempo um jogo de esconde-esconde, onde ele ganha quando eu estou acordada e eu ganho quando eu estou dormindo. É só assim que o tempo passa mais rápido quando eu me encontro no limbo onde não há meio termos. São picos de felicidades extremas ao desespero total de olhar pela janela e não enxergar nada além das grades que te trancam pro lado de dentro. É sufocante viver a mercê de coisas que não depende de mim. Eu não preciso de uma vida onde eu só vivo por que alguém dita meus dias. Eu quero mais, eu sempre quis mais, só que perdi esse sentimento durante alguma parte do caminho. Eu quero mais, eu sempre quis mais.
Agora eu volto e te busco, te coloco nas costas e saiu andando, meio cambaleando mas firme, mirando norte e a frente, até que eu caiu do joelhos e te vejo andando pelas próprias pernas enquanto as minhas, tão esfoladas não conseguem nem ao menos se flexionar. Então percebi que a estrada que eu estava traçando foi aquela que você já havia traçado, pensei que tivesse voltado pra te buscar e salvar o meu amor, mas isso tudo só foi você me deixando como retardatário e indo em frente de novo.
Eu fui muito mais você do que eu por tanto tempo. Eu não soube mais usar palavras pra te dizer o quanto eu te amei e isso ainda não foi o suficiente, então eu olho pra essa quarto escuro e penso nas coisas que não foram ditas mas estavam tão no ar que eu jurava poder vê-las pairando sobre nossas cabeças. Pensa comigo e me diz, me lembra, me ajuda a saber se houve algum erro falho, um ponto não reforçado, onde essa rachadura tão grande esteve esse tempo todo que eu não vi? Eu poderia ter arrumado, se me desse uma chance.
Não. Foram jogando palavras na minha cara como se eu nunca tivesse feito nada de bom na vida. E o que mais machucou foi a falta de dúvida, a sua tão firma posição a tudo isso. Não houve nada que eu pudesse fazer. Não.
Me diz então o que eu fiz nesses últimos meses se o único sentimento que você deveria acreditar, você não acreditou.
Você simplesmente, não acreditou. Como se 'nós' fosse só uma palavra com 3 letras.
Foi caindo, em câmera lenta enquanto eu batia a palma da mão contra o volante do carro. Vinha queimando por dentro, ardendo, privando o pulmão de ar. Era tarde demais e eu já havia perdido.
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